E antes de serem educadas, deveriam cuidar das palavras, porque elas são tijolos. Eu não fico falando do ateísmo, nem firo, inflijo e ataco. Gostaria que, no mínimo, fizessem o mesmo.
“Talvez eu esteja realmente feliz por hoje completar mais um ano de vida… Talvez as tempestades que antecederam este dia fossem só mais uma prova para superar, para passar por cima, para mostrar que sim, EU ESTOU FORTE o suficiente para aguentar o que vim pela frente. Talvez eu perdi um pouco a inocência daquela menina sorridente, ou as lágrimas que ela derramava quando chegava da escola… É eu perdi. Mas eu sei, novos sorrisos há de vir novas lágrimas também, cresci neste ultimo ano não para o alto nem para os lados, mas cresci aqui dentro, completei o espaço que estava faltando. Sabe aquele pedacinho incompleto que tanto gostava de reclamar? Pois bem, acho que não existe mais, não existe vazio, solidão, tristeza, apatia… O que existe ainda é essa vontade de ser a coitadinha, a vítima de sempre, a frágil não consegui tirar isso de mim. Pois gosto de ser protegida, amada, afagada me entende não é? E não me culpe por isso ainda tenho garras e sei arranhar, sei me defender como ninguém. Um ano faz diferença, trás mudanças, hoje em dia sei definir exatamente o que sinto e o que escrevo mesmo que por fora esteja essa bagunça de sempre lá no fundo sei o que quero, e o que desejo transmitir. Sei aceitar as mudanças que há de vir só levarei tempo para me acostumar com elas. E amanhã prometei a mim mesma que essa nova etapa será diferente pois vou lutar para ser. Quando me deitar está noite irei lembrar de tudo, vai bater aquela saudade, aquela angustia mas eu vou abrir os meus olhos amanhã e vou agradecer por ter crescido tanto ao ponto de superar meus próprios medos bobos de sempre, e que amanhã eu possa vir aqui de dizer a todos vocês que o dia sorri para mim e eu aprendi a sorrir para ele sem esperar nada em troca.”
Mais uma dose ou mais um trago?
Você chora como se sua boca fosse engolir as lágrimas. Seus olhos lhe mastigam. E ao invés de cílios, vejo dentes. Caninos. Você chora como se o mundo fosse acabar, logo agora. Antes d’eu virar na esquina e vislumbrar a minha estrela dourada, incandescente. Inocente. Você não insiste em dormir. Porque até nos sonhos, eu estarei lá. Ei!, o forro de cama está lavado. E você reclama, como sempre, do borrão de base deixado bem na barra do edredom. Vai ver é só mais um resquício seu que insistes em pregar por aí. Como se fosse necessário dizer “passei por aqui”. E só de ver a ferrugem do portão, o meu olhar de peixe morto (sem lagoa, sem mar) ou a luz acesa, sabe-se que estivera aqui. Todas as suas manias, em chover sem ao menos evaporar no mundo. Em não insistir em se esconder em minhas pálpebras finas ou o hábito de rejeitar o interruptor como um cachorro que abana o rabo e nem afagas. Você rejeita a luz e ainda quer o calor. E todo esse fungar que escuto daqui só serve pra você entupir as narinas que lhe impedem de respirar. Queres privar o teu próprio oxigênio? Já não basta me trancar do lado de fora e brincar com a chave como quem não tem nada melhor pra fazer? 10 minutos. Seriam o lixo que esqueci de deixar lá fora e o carro não passou pra pegar. O que faço com dez passos do ponteiro do relógio? Você não sabe nem o que é caminho. Se soubesse, passaria por aqui? Você quer ser bagagem e, por vezes, se resume em mala. Sem alça, sem brasa, sem praça. Como é que vou esperar a lotação dos teus passeios sem destino, se nem um lugar perene, tu marcas em aparecer? Você é sumiço. E na realidade, cansei de procurar fantasmas.
Tira de mim o que não é pra ser meu. Tira essa saudade tua, essa vontade de te acompanhar por onde você for. Tira. Tira essa loucura de querer ser sempre tua, tira todo o desejo que tenho de estar contigo, tira toda essa obsessão que tenho em te fazer feliz. Livra de mim esse querer que me deixa sem dormir, essas lembranças que me atormentam a todo instante, tira qualquer vestígio teu. Mas se preferir tira logo essa roupa e vem pra cá.
Eu falo com as flores, e elas têm a risada mais bonita que já ouvi, meu amor. Elas cantam como a chuva, mas não assustam como os relâmpagos e os trovões entre as nuvens. Não apedrejam o telhado com os espinhos, não atraem os pesadelos na escassez do murchar. E não cortam como os cacos de vidro que você pôs no chão ao pintar o azulejo. Elas não ferem como a faca que assombrou a linha tenra da minha pele quando a lâmina fez cócegas ali. Falo com as flores e ouço a mais triste história de amor, no poema gigante que o terreno estranho e o palco enferrujado das palavras me contaram noite passada, quando o silêncio do sono alheio torturou o pensamento. E você pisou com teus pés pesados, amassando cada flor de papel que pendurei no teto do quarto. Mas saiba que elas não me tiram a calma como o teu olhar, nem são bêbadas como os vícios do teu riso. Falo com as flores, elas não fizeram nenhum barulho na janela, não uivaram detrás do arame farpado, não disseram adeus e não foram embora quando eu esqueci de jogar um balde de água fresca em cada pétala que sentiu calor com a minha falta.
Camila M. Paiffer